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A seguir apresento uma breve revisão, um rápido sobrevoo, de reflexões diversas sobre eventos sociopolíticos envolvendo corpos de mulheres e de homens racializados/empobrecidos vinculades à UnB. Precisamos falar de suicídio na universidade.

Meu “incómodo diante das práticas sexistas no campo científico ganhou novos contornos a partir do feminicídio contra a estudante Louise Ribeiro nas dependências da Universidade de Brasília, em 2016. Esse crime estimulou mobilizações em diferentes frentes, a nossa voltada para promover a desnaturalização do silenciamento e injustiça epistêmica com a autoria feminina” (Elizabeth, Ruano-Ibarra, 2019, p. 31). Destacou o engajamento da professora Soraya Fleischer (2020, p. 12) quem também notou “como o abatimento chegou às minhas estudantes. A passagem dos dois colegas [Leticia e Wallace, relato a seguir] era assunto sussurrado pelos corredores, chorado pelos cantos. Difícil falar da partida, ainda mais de suicídio. Nossas fragilidades se expunham coletivamente e com mais força”. Como Soraya, continuo na recusa a “[…] que o silêncio e a solidão fossem as únicas formas de sentir tudo isso”, provocada e amparada pelas discentes que cursavam disciplinas ofertadas por mim transformamos as aulas em rodas de conversa. Desses espaços emergiram ideias posteriormente transformadas em notas publicadas neste blog, pesquisas, orientações, eventos e publicações. Não se trata de uma simples operação produtivista, como Rita Segato ensinou, mas colocar-se ao serviço da politização do saber mediante a pesquisa social engajada.

Retomar os anunciados eventos sociopolíticos, que constituem o cerne desta nota, é “uma forma, a um só tempo, de abrirmos espaço de reflexão, no espírito do que melhor a universidade pode oferecer, e de podermos, sempre que surgisse a necessidade, falar e lembrar de Elly e Wallace” (Soraya Fleischer (2020, p. 12), de Ariadne Wojcik, entre outres.

Em 4 de junho de 2018 “Letícia se despediu, nas redes sociais, com o pungente argumento de que não conseguia mais viver, denunciando as relações que a atormentavam: “Você não vai se encontrar na universidade. Você não vai finalmente ter amigos. Seu vazio não vai embora. Tudo vai ser igual, vai ser o mesmo, só que em outro ambiente e com outras obrigações. Você pode ir pro Japão, que nada vai mudar. Não tem como fugir de você mesma””.

Leticia tinha 22 anos e era estudante do curso de Ciências Sociais.

Para a professora da UnB, Camila Potyara: “O fato é que essa sociedade está doente. Está doente e adoece. A Universidade, inserida na lógica do capital, não poderia se comportar de maneira diferente: as pressões do produtivismo; a meritocracia que humilha e segrega; a competição e o individualismo exacerbados, são leis nesse espaço que deveria ser múltiplo, rico, coletivo. Os/as estudantes estão doentes. Não conheço um/a único colega professor/a que também não esteja, em algum nível, doente. Os técnicos estão doentes. […] Puxadas de tapete; boicotes ao outro; a famosa prática de “cozinhar” as demandas dos colegas e dos discentes; denúncias e cartas anônimas; fofocas de corredores; descrença e piadinhas feitas a respeito da doença mental do próximo (mesmo com atestado); manipulações; panelinhas/igrejinhas; patrulhinhas ideológicas; julgamentos infundados; inveja; assédios morais; todas estratégias de guerra nesse espaço hostil da Universidade. A luta pelo fim dessa sociedade capitalista que chafurda na barbárie, é tarefa que muitos de nós assumimos e continuaremos nela, de agora, até o fim”.

Não faz sentido pensar o suicídio como um gesto isolado de uma jovem angustiada“.

“A UnB, em especial, vive um agudo processo de desmanche, de desligamento massivo de jovens estagiários, demissão de centenas de trabalhadores terceirizados, de cortes de verbas, de programas etc nos marcos de um clima reacionário e podre de país à deriva, nas mãos de uma casta política [também judiciária, militar] corrupta, golpista, entreguista e cujo único papel é afundar o país na miséria das relações capitalistas, concentradoras de renda e fetichizadas pelo dinheiro e pelo carreirismo. Relações que operam, essencialmente para mutilar e roubar nosso futuro. A isso se soma a passivização das lutas sociais por parte da esquerda de mais visibilidade, que – a exemplo da burocracia da CUT, por exemplo – não vem reagindo minimamente aos ataques à classe trabalhadora, aos sucessivos e cotidianos golpes dos donos do poder contra o mundo do trabalho e a juventude.

Não há como isolar a subjetividade de uma juventude depressiva, angustiada, desse quadro que, em escala mais profunda, tem a ver com a atomização das relações humanas e o desenvolvimento, por outro lado, de uma desenfreada concorrência na luta pelo pão, por oportunidade [para desenvolver o potencial humano e criativo de cada um] e pelo desemprego e carga horária opressiva de cada dia.

A demissão em massa de trabalhadores da UnB é a contra-face de uma Universidade, pública, que não é prioridade de nenhum desses governos, dirigida como se fosse uma bolha, isolada das massas pobres, sem confluir para a vida real das massas, dos sonhos e do imaginário da juventude e mais: girando em torno do umbigo da burocracia acadêmica que não foi eleita por ninguém. E isso nos marcos de um regime acadêmico conservador, meritocrático, baseado na mais impiedosa e alienada “produtividade” e nos estúpidos e burocráticos métodos do Capes, do Ministério da Educação, da camarilha burguesa e medíocre [a começar do ministro da Educação, um perfeito palerma] que molda todo o ensino no Brasil”. Tomado de Esquerda diário.

No dia 11 de julho de 2018 Wallace Coelho “seguiu a mesma decisão de Leticia a partir da plataforma da Rodoviária, localizada no coração da capital
federal” (Soraya Fleischer, 2020, p. 11). “Wallace Coelho de Sousa, do curso de Graduação do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB), ingressou nessa universidade em 2014 […] foi um aluno muito esforçado e com pensamento sempre crítico, com uma história de luta para realizar a Graduação em Antropologia. Ele foi bolsista de Iniciação Científica do PROIC- PIBIC/UnB entre 2016 e 2017 e posteriormente obteve uma bolsa de estágio na Biblioteca Central da UnB, que ele ressaltou ser muito importante para permiti-lo seguir seus estudos” (Baines, 2018, p. 27).

Em “02 de março de 2019, realizamos uma visita à família do estudante de antropologia Wallace Coelho de Sousa que cometeu suicídio na plataforma da Rodoviária do Plano Piloto em julho do ano passado. A notícia nos surpreendeu a todos, quando então nos encontrávamos de férias e fora de Brasília, e não tivemos condições de expressar nossos pêsames à família, namorada e amigos e amigas do Wallace, quem nos deixou tão tragicamente. Desse modo, nos mobilizamos para publicar um de seus escritos, resultado de pesquisa de Iniciação Científica realizada na UnB sob a orientação do Prof. Stephen Baines, quem também redigiu um texto in memorian para Wallace. Entregamos uma versão encadernada para a família” (E-mail dirigido pela coordenação editorial da Revista Interethnic@ ao CAEP/UnB.

Leticia, Wallace, Ariadne e outres que também partiram tragicamente “compartilharam comigo, com minhas colegas e com as demais estudantes as salas de aula, os gabinetes, as secretarias, o restaurante universitário, as bibliotecas, as lojas de xerox, os ônibus, as calçadas e caminhos arborizados de nosso campus. Estiveram ali e nos ofereceram sua presença e curiosidade pelo mundo” (Soraya Fleischer, 2020, p. 11).

A Ariadne Wojcik,  bacharel em direito pela UnB, tinha 25 anos, faleceu em 2016, após acusar de assédio ao ex-chefe de estagio em escritório de advocacia de ex-professor, procurador do DF e professor voluntário da UnB (desvinculado em decorrência do falecimento de Ariadne). “Ariadne diz que se mudou para Cuiabá para fugir dos assédios sofridos. “As coisas ficaram muito estranhas quando ele demonstrava que sabia todos os lugares onde eu ia, sabia o teor das minhas conversas, com quem eu falava, sabia as páginas que eu acessava no meu computador pessoal”. “Em Cuiabá, segundo ela, a perseguição continuou acontecendo e ela passou a “apresentar sintomas típicos de uma pessoa que foi “medicada” com remédio prescrito, aqueles medicamentos depressores do sistema nervoso central, sendo que eu não estou tomando nada”. “Peço, por favor, façam alguma coisa, ele não vai se arrepender, ele não vai parar. Alguém faça alguma coisa”. “[…] tinha sido nomeada para assumir uma vaga no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT). Ela desapareceu no dia em que deveria assinar o termo de posse”.

Refletir sobre suicido e feminicidio no contexto do ensino superior passa por “pensar as delicadezas do tema […] as cautelas éticas e afetivas necessárias,
a identifica[ção] de rede[s] de apoio psíquico” Fleischer (2020, p. 21), na UnB e fora dela, o autocuidado que precisamos praticar, além de reconhecer  o sofrimento mental e psíquico aprofundado pela pandemia e a permanência no poder  governamental da ultradireita e sua política de ódio e destruição.

Refêrencias

Baines, S. Homenagem à Wallace Coelho de Sousa. Revista Interethnic@, v. 21, n. 3, 2018, pp. 27-30.

Fleischer, Soraya. Revista Textos Graduados, n. 1, v. 6,  2020, pp. 10-35.

Ruano-Ibarra, Elizabeth, Araujo de Avilar Amancio, Julia.  Participação-autoria e coordenaçãoliderança feminina nas reuniões anuais da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs). Millcayac – Revista Digital De Ciencias Sociales, v. 6, n. 11, 2019, pp. 31-62.

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