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Letícia Renault e Tania Montoro

O pranto e a dor pela morte da jovem estudante de Biologia, Louise Maria da Silva Ribeiro, nossa aluna do 4º semestre de Ciências Biológicas, brutal e covardemente assassinada por um colega nas dependências da UnB, deve se transformar, imediatamente, em reflexões e ações efetivas e drásticas contra qualquer tipo de violência na Universidade de Brasília. Infelizmente, é de conhecimento que campis, em muitas universidades do mundo, são lócus preferenciais para ações de violências de gênero e isso vem se tornando uma preocupação da comunidade científica internacional, de dirigentes, reitores, alunos, professores, agentes de segurança e especialistas em estudos de violência, gênero e feminismo.

A compreensão do fenômeno da violência, no contexto das sociedades contemporâneas, coloca na ordem do dia o reconhecimento da complexidade do fenômeno e suas formas diferenciadas de manifestação e isso nos conduz a identificar uma clara articulação entre violência e cultura. E a UnB apresenta uma cultura de violência contra a mulher que ainda impregna o cotidiano de professores, alunos e funcionários que sequer recorrem ao conselho de ética tamanha burocracia e constrangimento de que se reveste o processo.

Fato é, e tem que ser nomeado, que a constante subtração de recursos financeiros da União para Universidade de Brasília e, paradoxalmente o aumento de cursos e alunos, tem colaborado substantivamente com a falta de segurança impedindo um campus iluminado e seguro com todas as formas de controle necessárias para um produtivo exercício do processo de ensino aprendizagem em qualquer curso ou turno.

Agora nos deparamos, horrorizados, com o assassinato frio e calculado da jovem aluna por um colega, o que além da dor, é crime que macula a imagem do nosso histórico e amado Campus Darcy Ribeiro. Não seria o momento nos perguntarmos: – como podemos evitar, por um esforço coletivo e mobilizador, que outros crimes e violências (físicas e simbólicas) aconteçam dentro da nossa UnB?

A jornalista e escritora Eliane Brum em excelente artigo intitulado Meu filho, você não merece nada (2011) nos conduz a refletir sobre os valores que orientam a educação dos jovens hoje:

“Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”. Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer”.

As mulheres são a parcela mais escolarizada do Brasil. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE 2014) indicam ainda que na faixa etária dedicada à educação superior, a proporção dos estudantes entre 18 a 24 anos de idade que frequentam a graduação no Brasil é maior de mulheres, 63,3%, enquanto os homens somam 53,2. As mulheres se saem melhor que os homens na missão de completar a graduação. 12,5% das mulheres completaram a graduação contra 9,9% dos homens. O analfabetismo atinge mais os homens, 9,8%, frente aos 9,1% entre as mulheres dentre a nossa população, que já soma 205.611.596 brasileiros e brasileiras.

Podemos concluir que o analfabetismo se estende, em determinados casos, ao comportamento assediador dessa parcela de homens, que se mostra completamente despreparada para se relacionar com mulheres inteligentes, empoderadas de seus destinos e carreiras, generosas e sensíveis que não aceitam relações de dominação e subjugação típicas dos séculos passados e, sem ressonância com as conquistas femininistas do século XXI. Não basta ter cursos que respondem a mercados e rankings. Precisamos é de formar cidadãos comprometidos com a humanidade dentro de uma cultura da paz.

A Universidade de Brasília não pode se escorar no fato de que vivemos em uma sociedade historicamente mergulhada na violência cotidiana institucionalizada por preconceitos de gênero, raça, idade e classe. Como instituição de ensino, pesquisa e formação, a UnB tem por obrigação e responsabilidade traçar novos rumos e dar exemplos no combate à violência. Jamais reforçar entre seus muros práticas violentas que a sociedade brasileira já não suporta mais. Acorde, UnB! Transforme o pranto por Louise Maria em punições exemplares para os assediadores e futuros assassinos que insistem em violar a vida no cotidiano da UnB.

Letícia Renault é jornalista, doutora em Comunicação e professora adjunta do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, FAC/UnB. Autora de livros e artigos sobre web jornalismo e televisão e acesso público.

Tania Montoro é feminista, cientista social, pós-doutora em cinema e televisão e professora associada do Departamento de Audiovisual e Publicidade da Faculdade de Comunicação da UnB. Autora de livros e artigos sobre comunicação, cultura, gênero e violência. Membro do núcleo de estudos de Violência da UnB e do Consuni. Cidadã honorária de Brasília.
Fonte: http://unb.br/noticias/ unbagencia/artigo.php?id=924, acesso 15/03/2016

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